
(foto de David Gimenez publicada em seu flickr, encontrada ao acaso
quando eu fazia uma pesquisa de imagens no google para "irasahi")Depois de uns meses na lacuna (por vários motivos, como trabalho, trabalho, decisões, distanciamento, amor, visitas, falta de tempo, descanso, reflexões, mais reflexões, mais descanso, passeio, passeio, livros, livros, pensamentos soltos, pensamentos presos, uma lista de links e referências em crescimento exponencial, e libertação sobretudo), volto a atualizar o blog.
Fato: muitos links e referências e pensamentos se perderam pelo caminho.
Então, eu decidi começar pelo fresco. O recente. Onde minha memória chega sem muito esforço. O último, penúltimo, antepenúltimo ou até mesmo antes disso. Não necessariamente o mais recente. Mais ou menos como aqueles espaços que são os últimos a secar sobre as pedras molhadas. (Qualquer especialista no assunto pode responder esta pergunta num piscar de olhos, mas eu, na minha inocência poética, prefiro imaginar que existe uma razão misteriosa que faz alguns espaços secarem antes de outros sobre um chão de pedra. A tal mesma razão faria com que outros demorem mais para secar. É besta, bem besta, eu sei. E ainda penso que há uma relação entre isso e aquilo que fica fresco na nossa mente.)
A imagem que chega é o caminho de pedras que leva à cabana de uma cerimônia do chá.
Quem já percorreu sabe.
As pedras por onde se pisa estão frescas.
O espaço que não secou nas minhas memórias data o verão de 2007.
Mais precisamente, Kyoto, 24 de julho de 2007.
Alto verão. Noite bem dormida na viagem de ônibus que partiu de Tokyo. Café da manhã delicioso na estação de trem futurista. Algumas olheiras. E calor.
Fomos um dos os primeiros a chegar no Kinkaku-ji.

(by KIKKS)
(piso sobre mais algumas pedras ainda molhadas: a visita ao templo dourado era um dos pontos altos da viagem... Plinio havia descoberto um ano antes que da janela da cabana da cerimônia do chá se avistava o templo, como se ele tivesse sido construído apenas para compor a vista, Richard tinha lembranças do livro de Mishima que leu na sua adolescência, e eu tinha a referência de um dos passeios preferidos da minha infância: Itapecerica da Serra para acompanhar a construção da réplica do templo japonês — lembro do terreno vazio, das pedras, das histórias de mortos em crematórios, das estruturas de madeira sem pregos, apenas encaixadas, dos caminhos de terra, do cheiro de mato, do galo dourado envolto de um lago seco e, depois, um templo, um jardim, um lago, carpas, cinzas, vida e morte)
Quando estava indo embora, notei um senhor regando o caminho de entrada.
(by KIKKS)